Na mais recente reunião de política monetária, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter inalteradas as taxas de juro diretoras, contrariando as expectativas de parte dos analistas que antecipavam um novo aumento. A decisão foi aprovada por consenso no Conselho do BCE e refletiu a intenção da instituição de avaliar a evolução da inflação e da economia da Zona Euro antes de avançar com novas alterações à política monetária.
Contudo, esta pausa poderá revelar-se apenas temporária. A evolução da situação geopolítica internacional, em particular o agravamento das tensões no Médio Oriente, está a aumentar a incerteza nos mercados financeiros e a alimentar receios de uma nova subida da inflação.
Os confrontos na região e o risco de perturbações no abastecimento mundial de petróleo voltaram a pressionar os preços da energia. O barril de Brent, referência para o mercado europeu, voltou a ultrapassar os 100 dólares, reacendendo preocupações quanto ao impacto que um aumento prolongado dos custos energéticos poderá ter sobre a inflação.
Sempre que a inflação ameaça afastar-se do objetivo de 2%, o BCE dispõe de um dos principais instrumentos de política monetária: a subida das taxas de juro. Ao aumentar o custo do dinheiro, o crédito torna-se mais caro para famílias e empresas, reduzindo o consumo e o investimento. O objetivo passa por moderar a procura e contribuir para uma desaceleração da subida dos preços.
Analistas admitem novas subidas das taxas de juro
Caso a pressão inflacionista se mantenha ou volte a intensificar-se nos próximos meses, vários analistas consideram provável que o BCE retome o ciclo de aumento das taxas diretoras ainda este ano. Alguns cenários apontam para até duas novas subidas, o que faria a taxa de depósito passar dos atuais 2,25% para cerca de 2,75% até ao final do ano.
Em Portugal, onde a maioria dos contratos de crédito à habitação continua indexada à Euribor, qualquer alteração das taxas diretoras tende a refletir-se, de forma gradual, nas prestações pagas pelas famílias, à medida que os empréstimos são revistos.
Prestação da casa poderá aumentar cerca de 7%
De acordo com simulações realizadas para um contrato de crédito à habitação de características médias, uma subida das taxas de juro desta dimensão poderá traduzir-se num aumento significativo dos encargos mensais.
Os juros pagos ao banco poderão passar de cerca de 362 euros para aproximadamente 398 euros por mês, o que representa um agravamento na ordem dos 36 euros mensais. No conjunto da prestação, o aumento poderá rondar os 7%, dependendo do capital em dívida, do prazo remanescente do empréstimo e do indexante contratado.
Embora o impacto varie de família para família, uma nova subida das taxas de juro poderá representar um esforço financeiro adicional para milhares de agregados familiares, numa altura em que muitos já enfrentam custos elevados com habitação, energia e bens essenciais.